23 de março de 2011

patchwork rug


Uma das minhas irmãs, sabendo das minhas manias, ofereceu-me estas amostras de tecidos, para brincar um bocadinho com as cores. São tecidos industriais grossos, de algodão, próprios para forrar sofás ou fazer reposteiros. O sítio preferido cá em casa para as brincadeiras continua a ser o chão mas, quando chega o calor, há quem se queixe de que os tapetes "picam". Parece-me que está na hora de fazer uma manta de chão para a Primavera que acabou de chegar, com as cores que começam a aparecer por todo o lado. Talvez lhes junte uns pedaços de ganga de várias cores que fui salvando das calças que se gastam cá em casa. Será completamente inspirada nos tapetes de retalhos turcos, na sua versão contemporânea, cujo único defeito que têm é o de ser impossível decidir de qual se gosta mais.

12 de março de 2011

estendais de alfama


Roque Gameiro é dos meus pintores favoritos das ruas e vielas da Lisboa do séc. XIX. Sobre esta aguarela, Alfama, referem-se as "tonalidades suaves, musicais, na representação da velha rua tortuosa, de janelas e varandas embandeiradas de colchas e lençóis, de roupas a secar, e de lajedo percorrido por populares trajados à moda de antanho." (Quadros do Museu da Cidade, Câmara Municipal de Lisboa, introd. Fernando Pamplona, 1972 - a litografia é parte integrante desta edição).

Quem me dera estas gentes e belos estendais...



10 de março de 2011

lenços de namorados ou lenços de amor

Os lenços de namorados e suas raízes históricas, a sua função sociológica no ritual do namoro minhoto e não só, e a sua presença no trajo tradicional é tema apetecível para quem se dedica a pensar e escrever sobre a cultura popular portuguesa.

No Minho, não há feira ou ajuntamento festivo em que não se vendam os lenços, hoje em dia já sujeitos a um processo de certificação. De cerca de meio metro de lado, os mais populares são os garridos e bordados com cores e pontos variados, frequentemente ilustrados com textos. Menos frequentes e também muito mais dispendiosos, os que contém bainhas abertas ou os bordados em ponto-de-cruz, ou os que são bordados sobre linho de cor.

Apesar de ver muitos à venda e de serem muito procurados, desprovidos da sua função original, que papel desempenham actualmente os leços de namorados? 
Na minha adolescência, os lenços tiveram a mesma função dos marcadores (sempre os conheci por este nome, embora nos poucos estudos portugueses sobre o tema sejam designados por mapas/mostruários), onde pude aprender e praticar vários pontos de bordado (pé-de-flor, cheio, recorte, canutilho, espiga), dando largas à imaginação no que respeita às cores (dezenas, sendo o único requisito a sua garridice), nos mais variados motivos (flores, folhas, corações, sóis, barcos, pássaros...), com base nos riscos que existiam em casa. O resultado final é vibrante, cheio de remeniscências da minha terra e, parte que me agrada especialmente, é um resultado útil, porque regularmente usado, nas festas, como pano da cesta do pão e dos bolinhos...

Tal como aconteceu com os marcadores, os lenços de namorados antigos sairam das arcas e passaram a ser objecto de decoração, devidamente emoldurados, partilhados à vista de todos.
Se uma pequena parte da produção dos lenços de namorados ainda se destina a complementar os trajos típicos dos grupos etnográficos da região, a maioria destina-se ao turismo, adquiridos como lembrança do Minho ou de Portugal.

Na fotografia: risco do Lenço das Quadras sob reprodução do lenço no livro Tesouros do Artesanato Português (vol. II) Têxteis, Teresa Perdigão (Editorial Verbo)

Exemplar do Lenço da Alice, bordado pela minha Mãe, a branco, como era feito originalmente, sobre fotografia de exemplar executado em azul, no mesmo livro.

É claro que não resisto a mostrar aqui alguns dos meus preferidos e que pertencem à colecção do Museu de Arte Popular, do Museu Nacional de Etnologia e do Museu Nacional de Arqueologia. Vale muito a pena também ver a colecção dos lenços de Aboim da Nóbrega.





Sobre lenços de namorados, para além do livro que refiro, e dos sites para que encaminho, também o catálogo da exposição do Museu de Arte Popular "O Ponto de Cruz, a grande encruzilhada do imaginário" (coord. Elisabeth Cabral), a que cheguei através da Rosa Pomar, e os clássicos da arte popular portuguesa (por exemplo, A Arte Popular em Portugal, dir. Fernando Pires de Lima, editorial Verbo).

1 de março de 2011

cores de espera

É nos breves instantes que dura o lusco-fusco em Lisboa que vejo as cores que mais me encatam
e que tentei colocar na manta de retalhos que fiz para um bebé de uma amiga que está a caminho,
e que são, percebi, as mesmas que, sem dar por isso, andaram pelos tricots que fiz para os meus filhos ainda antes de nascerem.

23 de fevereiro de 2011

Pamplona

O meu filho, de 5 anos, parece lidar muito bem com a frustração.
Quando lhe é dito que irá parar de jogar wii por serem quase horas de ir dormir, sem zanga e num ápice, desenha uma consola, respectivos comandos e ecran de televisão, recorta-os e coloca-os aos pés da cama, enquanto se deita pacificamente.
O mesmo aconteceu quando lhe viu ser negado o evidente direito a ter um telemóvel. Em poucos instantes, vários telemóveis, de diferentes marcas e modelos, fidelizados a diferentes redes, proliferaram lá por casa, decalcados para o papel com surpreendente detalhe e rigor, devidamente recortados e dispostos em todos os sítios onde é comum encontrar telemóveis.
Por isso, quando lhe disse que iria uns dias em trabalho a Pamplona, respondeu que ele iria também para ver essa cidade feita de papel. Depois de alguns instantes, percebi a óbvia associação entre Pamplona e "papelona" e a frustração provocada pela ausência da mãe.
Pamplona não é feita de papel, e não fora Hemingway e o encierro de San Fermin, julgo eu seria conhecida de muito poucos. Capital do Reino de Navarra, é uma cidade do norte da Península, com tudo o que isso significa de história, de belíssimas paisagens de bosques e grutas, e de identidade e tradição.
Trouxe-lhe as fotografias para que veja de que é que Pamplona é feita.

14 de fevereiro de 2011

xaile das conchas

O padrão do meu xaile de bébé está nesta revista japonesa que encontrei aqui.
Achei tão engraçada a coincidência porque foi um ponto que procurei muito tempo sem sucesso e já achava que seria uma raridade do crochet português, perdida na memória das nossas avós.
Não sei ler japonês mas adorava saber o nome deste ponto. Para mim sempre foi o xaile das conchas.

a propósito de Barcelona

ou, como lá perferem, bəɾsəˈɫonə (em catalão).
Na minha escala de preferências, a seguir a Lisboa, é a segunda (ok, a terceira) das minhas cidades preferidas da Península.


É uma cidade que nos convida a olhar para cima, construída em direcção ao céu e voltada para o mar, sem que para isso tivesse que optar por arranha-céus ou por docas de maré vaza. Não sei se esta "tendência" estética foi uma consequência da alma de quem lá vive (e viveu) ou se pelo contrário é ela que marca, desde a infância, a mentalidade dum povo que não gosta de olhar para baixo (nem se deixa limitar pelo que ficou atrás).  

Em Espanha, bem como em muitos outros países, é notório o gosto com que promovem o que é deles, quer quando o que têm é excelente, ou apenas bom, quer mesmo quando não é nem uma coisa nem outra. E não se diga que se trata "apenas" de turismo. O turismo implica imenso, convicção aos que o oferecem e exigência aos que o procuram.
É neste ponto do raciocínio que me descubro cansada de encontrar em Portugal belezas atrás de tabiques, tesouros fechados ao público, monumentos não contextualizados, muitas vezes nem sequer identificados, e muitas mais nem mesmo iluminados. Em suma, reconheço-me cansada do que é nosso nas mãos de quem não no-lo deixa ver.
Há quem insista em fazer de Portugal um sítio envergonhado de si e do seu passado. São seres profundamente politizados e muito remotamente educados, que guardam nos seus mal talhados bolsos as chaves das nossas histórias. Em processos auto-justificativos, reelaboram "novas" teses fundadas em duvidosas correntes museológicas, o mais das vezes ultrapassadas.
Abrem exposições, cobram-nos bilhetes para oferecerem as páginas, em ponto grande, dos textos da nossa 4ª classe, como que de uma lenta e paternal preparação se tratasse, para que um dia, então sim, estejamos preparados para entender aquilo que, para já, se encontra fechado com uma chave que só a alguns é dado guardar.
Têm medo, medo de que, nos museus, arquivos e monumentos que, em hora de má memória, lhes cairam nas mãos, brilhem os dourados, as nossas rendas e brocados, os nossos barros, as palavras, batalhas e ideologias, o nosso imenso exagero e a nossa exaltação, a nossa identidade, a nossa gente.

E é com isto que verdadeiramente não pode a mediocridade de alguns dos que guardam as chaves do que é nosso, é a isto que não resistem as suas identidades, forjadas na antítese do que é Portugal.

9 de fevereiro de 2011

Eu do grupo

A expressão não é minha (D. Anzieu) e ocorreu-me quando vi  a manta de retalhos pronta depois de se ter vindo a fazer em várias sessões de formação com a Rosa Pomar.

Seguiu de perto uma das minhas mantas de retalhos preferidas de sempre;
Os tecidos são de designers maravilhosos que não resisto a coleccionar (Heather Ross, Philip Jacobs, Denyse Schmidt, Kaffe Fassett, Martha Negley...) mas também da feira de Braga que aprendi a gostar frequentar com a minha Mãe;
As sugestões das várias mulheres presentes enriqueceram-na;
Mãos críticas questionaram-na um pouco mais do que ontologicamente;
Este olhar criativo e resiliente guiou-me na selecção das cores e padrões e não me deixou partir sem a terminar.

De estritamente meu a manta de retalhos tem muito pouco o que, parece-me, não podia estar mais de acordo com a sua natureza.

6 de fevereiro de 2011

Beiroa à japonesa



Cá por casa, quando vimos a meada de Beiroa desfeita, pareceu-nos consistente, tenra e luzidia como massa de arroz japonesa e não resistimos a esta brincadeira.

Com uma meada da apetitosa lã, uma receita deste lindíssimo livro japonês de crochet, e com esta colher de pau (3.5mm) confeccionámos um cachecol que agradou à mais exigente das gourmets e que teve honras de fotografia e tudo!

3 de fevereiro de 2011

afinidades (2)

Há uns meses atrás, vi este livro à venda na Retrosaria e achei-o tão atractivo que de imediato liguei para a Rosa pedindo para me reservar um exemplar.
Na recente rumagem às fotos "antigas", encontrei esta, com décadas, e subitamente percebi o que, com todas as devidas diferenças, tinha de tão familiar aquela capa.

2 de fevereiro de 2011

estendais da Afurada

Esta lindíssimas fotos da Diane fizeram-me correr para a caixa das fotografias procurar as que tirei no mesmo sítio há 13 anos. É um lugar em que o tempo não passa, tudo aparenta estar como antes, e as cores que na altura não pus no papel são ainda as mesmas que me ficaram na memória.

tempus fugit

ontem percebi o que significa quando, a pedido da F., folheei este livro (oferecido pelo meu Pai há cerca de 20 anos) para a ajudar a fazer os trabalhos de casa de música
Time is a train
Makes the future the past
Leaves you standing  in the station
Your face pressed up against the glass