Estas chitas muito antigas (primeira metade do séc. XX) pertencem às arcas de casa dos meus Avós mas não vêm de dentro mas sim de cima delas. Eram metros e metros de tecido que se destinavam a proteger do pó e da luz várias arcas de porão, enormes e fundas, que nunca vi vazias, mas onde, nessa altura, caberiam várias de mim, o que me fascinava.
Adorava ir às arrecadações com a minha Avó, quando o tempo arrefecia e era necessário colocar mais cobertores nas camas, e vê-la afastar cuidadosamente as chitas, abrir as arcas e desvendar os seus mistérios: os lindos papéis de florões azuis que as forravam, as inúmeras maçarocas de alfazema que exalavam um aroma intenso e fresco, vestidos de veludo, chapéus e bolsinhas bordados com continhas de azeviche, rolos de linho, o brilho do verniz dos chinelos de lavradeira e, no fundo, os peludos cobertores de papa, decorados com riscas, pensava eu, da bandeira nacional. A minha Avó respondia, com muita naturalidade, enquanto se mergulhava dentro das arcas, que alguns deles ainda eram monárquicos.
Quando voltei a pegar nestes panos, pareceu-me ainda sentir o aroma das arrecadações, das grande talhas de barro negro onde se conservavam em vinagre pimentos e pepinos e onde se curtiam azeitonas verdes, dos bidons cheios de espesso azeite e dos vapores dos vinhos tinto, branco e rosé que se escapavam das garrafeiras e dos pipos. Nesta época, era também o cheiro das maças Bravo de Esmolfe (que eu pensava só existirem na Quinta do meu Avô por terem o seu apelido), das uvas moscatel e dedos de dama, das pêra joaquina e pêra-pérola, dos figos e depois dos marmelos, arrumados em pirâmides nas enorme maceiras de castanho.
Não estivessem estes tecidos enfraquecidos pelo tempo, mandaria forrar com eles os sofás, faria almofadas e cortinas para todas as janelas simplesmente porque ficam tão bem com tudo o que há hoje em minha casa.