Tirei da estante um livro, em tempos comprado numa feira de usados.
A maior parte das folhas tinha escapado à guilhotina da gráfica, ainda fechadas de quatro em quatro.
Com antecipada satisfação e uma faca de lâmina fina e bem afiada, retomei do meu pai os gestos de mais remota lembrança, mão esquerda, firme, aberta em leque, de polegar entre as folhas, incisiva a mão direita, desencarcerado poemas, em fugidios exalos de pó-papel.
De tão deliciosa actividade fica, para sempre, numa das faces, o registo, em rebordo irregular de veludo branco.
Depois, li:
Desde el umbral de un sueño me llamaron…
Era la buena voz, la voz querida.
- Dime: ¿vendrás conmigo a ver el alma?...
Llegó a mi corazón una caricia.
- Contigo siempre....Y avancé en mi sueño
por una larga, escueta galería,
sintiendo el roce de la veste pura
y el palpitar suave de la mano amiga. (Antonio Machado)