10 de março de 2011

lenços de namorados ou lenços de amor

Os lenços de namorados e suas raízes históricas, a sua função sociológica no ritual do namoro minhoto e não só, e a sua presença no trajo tradicional é tema apetecível para quem se dedica a pensar e escrever sobre a cultura popular portuguesa.

No Minho, não há feira ou ajuntamento festivo em que não se vendam os lenços, hoje em dia já sujeitos a um processo de certificação. De cerca de meio metro de lado, os mais populares são os garridos e bordados com cores e pontos variados, frequentemente ilustrados com textos. Menos frequentes e também muito mais dispendiosos, os que contém bainhas abertas ou os bordados em ponto-de-cruz, ou os que são bordados sobre linho de cor.

Apesar de ver muitos à venda e de serem muito procurados, desprovidos da sua função original, que papel desempenham actualmente os leços de namorados? 
Na minha adolescência, os lenços tiveram a mesma função dos marcadores (sempre os conheci por este nome, embora nos poucos estudos portugueses sobre o tema sejam designados por mapas/mostruários), onde pude aprender e praticar vários pontos de bordado (pé-de-flor, cheio, recorte, canutilho, espiga), dando largas à imaginação no que respeita às cores (dezenas, sendo o único requisito a sua garridice), nos mais variados motivos (flores, folhas, corações, sóis, barcos, pássaros...), com base nos riscos que existiam em casa. O resultado final é vibrante, cheio de remeniscências da minha terra e, parte que me agrada especialmente, é um resultado útil, porque regularmente usado, nas festas, como pano da cesta do pão e dos bolinhos...

Tal como aconteceu com os marcadores, os lenços de namorados antigos sairam das arcas e passaram a ser objecto de decoração, devidamente emoldurados, partilhados à vista de todos.
Se uma pequena parte da produção dos lenços de namorados ainda se destina a complementar os trajos típicos dos grupos etnográficos da região, a maioria destina-se ao turismo, adquiridos como lembrança do Minho ou de Portugal.

Na fotografia: risco do Lenço das Quadras sob reprodução do lenço no livro Tesouros do Artesanato Português (vol. II) Têxteis, Teresa Perdigão (Editorial Verbo)

Exemplar do Lenço da Alice, bordado pela minha Mãe, a branco, como era feito originalmente, sobre fotografia de exemplar executado em azul, no mesmo livro.

É claro que não resisto a mostrar aqui alguns dos meus preferidos e que pertencem à colecção do Museu de Arte Popular, do Museu Nacional de Etnologia e do Museu Nacional de Arqueologia. Vale muito a pena também ver a colecção dos lenços de Aboim da Nóbrega.





Sobre lenços de namorados, para além do livro que refiro, e dos sites para que encaminho, também o catálogo da exposição do Museu de Arte Popular "O Ponto de Cruz, a grande encruzilhada do imaginário" (coord. Elisabeth Cabral), a que cheguei através da Rosa Pomar, e os clássicos da arte popular portuguesa (por exemplo, A Arte Popular em Portugal, dir. Fernando Pires de Lima, editorial Verbo).

2 comentários:

Alexandra Durão disse...

Tenho um dos mais populares e coloridos com quadras, mas gosto mais destes em ponto de cruz, então estes, mais antigos, são um primor. O da tua mãe, bordado a branco, é lindo! :-)

Vera disse...

sim, no cesto do pão ou dos bolinhos :-)