As sacas têm todas mais de 40 anos de idade. Foram feitas para serem diariamente cheias de cacetes de centeio estaladiços e pães de cantos de trigo fumegantes. As padarias foram escasseando e a minha Mãe insistindo em manter a uso as sacas do seu enxoval, não permitindo que se esvaziassem e que fossem esquecidas nas gavetas. Um dia, o cordão encarnado de uma desbotou irremediavelmente o que ditou a sentença das restantes. Como que numa cerimónia de rendição, não fosse mais alguma ficar ferida na luta contra os sacos de plástico, recolheram à arca, dobradas como bandeiras. Quando, de tempos a tempos, a arca se abria, encatava-me com cada uma delas por diferentes razões, por entre o aroma da cânfora. Porque os cravos pareciam verdadeiros embora feitos em ponto de cruz. Porque o tecido era o das almofadas onde eu no Verão dormia a sesta na varanda da minha Avó. Porque tinha um cordão laranja, dos verdadeiros, feito à mão, e já niguém sabia como se fazia. Por ser parecida com o edifício da panificação de Chaves, do Nadir, onde fui ao pão sozinha pela primeira vez. Por parecer irremediavelmente perdida e, não sei porquê, ter sido sempre a de que mais gostei.
3 comentários:
Lembro-me de a minha mãe usar sacas de pano para o pão, depressa substituídas pelas de plástico. Uma tinha flores em ponto de cruz... São bonitas as sacas, porque têm memórias associadas, afinal, é o que nos faz gostar de algumas coisas, mais do que de outras, mais do que a beleza que as encerra, são as memórias que guardam. :-)
que LINDOS
Boa tarde
Parabens pelo vossa iniciativa. Gostava de a entrevistar para o projecto Fios com Historia (www.fioscomhistoria.com) para que a possamos conhecer melhor, tem disponibilidade? Não encontrei o seu contacto neste blog, por favor contacte-me para fioscomhistoria@fioscomhistoria.com
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