24 de agosto de 2010

Tesouros da arca

Estas chitas muito antigas (primeira metade do séc. XX) pertencem às arcas de casa dos meus Avós mas não vêm de dentro mas sim de cima delas. Eram metros e metros de tecido que se destinavam a proteger do pó e da luz várias arcas de porão, enormes e fundas, que nunca vi vazias, mas onde, nessa altura, caberiam várias de mim, o que me fascinava.
Adorava ir às arrecadações com a minha Avó, quando o tempo arrefecia e era necessário colocar mais cobertores nas camas, e vê-la afastar cuidadosamente as chitas, abrir as arcas e desvendar os seus mistérios: os lindos papéis de florões azuis que as forravam, as inúmeras maçarocas de alfazema que exalavam um aroma intenso e fresco, vestidos de veludo, chapéus e bolsinhas bordados com continhas de azeviche, rolos de linho, o brilho do verniz dos chinelos de lavradeira e, no fundo, os peludos cobertores de papa, decorados com riscas, pensava eu, da bandeira nacional. A minha Avó respondia, com muita naturalidade, enquanto se mergulhava dentro das arcas, que alguns deles ainda eram monárquicos.
Quando voltei a pegar nestes panos, pareceu-me ainda sentir o aroma das arrecadações, das grande talhas de barro negro onde se conservavam em vinagre pimentos e pepinos e onde se curtiam azeitonas verdes, dos bidons cheios de espesso azeite e dos vapores dos vinhos tinto, branco e rosé que se escapavam das garrafeiras e dos pipos. Nesta época, era também o cheiro das maças Bravo de Esmolfe (que eu pensava só existirem na Quinta do meu Avô por terem o seu apelido), das uvas moscatel e dedos de dama, das pêra joaquina e pêra-pérola, dos figos e depois dos marmelos, arrumados em pirâmides nas enorme maceiras de castanho.

Não estivessem estes tecidos enfraquecidos pelo tempo, mandaria forrar com eles os sofás, faria almofadas  e cortinas para todas as janelas simplesmente porque ficam tão bem com tudo o que há hoje em minha casa.

4 comentários:

Alexandra Durão disse...

São lindas realmente, apesar da idade, e as memórias são tudo o que fica, mesmo quando não restarem tecidos. Hoje vivi um momento engraçado, quando estava num quintal, aqui perto, olhei para a terra e reconheci a rama da cenoura, fiquei admirada comigo mesma, mas o que me veio à memória com a rama das cenouras, foi a minha avó, de cócoras a desenterrar cenouras e a dar-mas para as comer, depois de as passar pela água no poço. As surpresas que a memória nos dá! :-)

Rosa Pomar disse...

Que lindas que são, Joana. Eu guardo as chitas muito bem guardadas. Quando tivermos um museu de artes decorativas que comece a dar atenção a este património terei uma bela colecção para doar.

saloia disse...

adorei ler, Joana.

Mary

Owl_mania disse...

Que ricos tesouros Joana!